terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Sobre ser um cristão gay

Bruce Bawer


Como muitos de vocês certamente devem saber, falar a um heterossexual a respeito da sua condição homossexual, e especialmente a um cristão heterossexual sobre a sua vida de cristão gay, pode ser frustrante e desagradável. Há uma quantidade incrível de incompreensão e desconforto em nossa sociedade ao redor deste tema, e uma pessoa de bem pode dizer coisas cruéis sem mesmo imaginar que está sendo rude.


Acredito ser importante enfatizar que compreender e se sentir confortável com a homossexualidade pode ser um processo longo e penoso não apenas para a maioria dos heterossexuais como também para a maior parte dos homossexuais. De fato, trata-se do mesmo processo, exceto pelo fato de que, para os homossexuais, tentar entender e acertar as contas com a homossexualidade é uma obrigação, caso queiram ter vidas completas emocionalmente e saudáveis, uma vez que isso é algo que está dentro deles e faz parte de suas identidades – apesar da sociedade ter os condicionado a pensar a homossexualidade como uma coisa negativa. Para os heterossexuais, a homossexualidade pode não se constituir em uma questão digna de reflexão. A menos que, naturalmente, o tema os toque diretamente pelo fato de um amigo próximo, irmão ou filho terem revelado a sua homossexualidade.

Eu começo meu livro A Place at the Table com uma história sobre um garoto – um adolescente, na verdade. Certo dia, na época em que estava com meus 40 anos, entrei em uma livraria em Nova York e vi um menino de uns 15 anos, bem-vestido, obviamente bem-amado e bem-cuidado, parado sozinho na seção de revistas. Logo que o vi, tive um ímpeto de compreensão, uma sensação de um conhecimento íntimo e absolutamente preciso me surpreendeu, forçando-me a interromper o que estava fazendo. Fiquei observando enquanto o garoto pegava uma revista, olhava-a rapidamente e a abandonva logo em seguida, e assim sucessivamente com todas as demais revistas. Sabia que ele não estava interessado naquelas revistas e que tentava tomar coragem para ler alguma outra coisa. Continuei ali porque desejava ver se ele criaria coragem.

Ele teve coragem. O adolescente pegou uma cópia do New York Native, um tablóide gay. Se aquelas outras publicações tinham sido folheadas com desprezo, ele se deparou agora com a Native com uma sede semelhante a de quem acabou de cruzar o deserto e tropeça em uma fonte de água corrente. Eu estava orgulhoso do garoto. Desde o primeiro momento, sabia que ele era homossexual - não por apresentar alguma caraterística do estereótipo gay, mas porque havia algo nele que ressoava profundamente em mim, que se ligava às memórias de quando eu tinha aquela idade, que comunicava um medo, uma curiosidade, uma incerteza, uma intensa solidão que eu era capaz de reconhecer e de me identificar. Em todo caso, sabia naquele momento que ele era homossexual e que estava começando a ter ciência disso, e sabia também que não havia ninguém com quem ele poderia falar sobre esta importante descoberta que ele havia feito a respeito de si mesmo. E então ele tinha vindo àquela livraria.
 
No entanto, o que ele tinha encontrado? Na posição em que me achava, podia ver algumas das imagens daquela revista. Havia chamadas para clubes de striptease, shows de drag-queens, leather bars, serviços de acompanhantes e sexo por telefone, todas ilustradas com fotografias de homens quase-nus, alguns deles vestidos com couro, outros simulando atos sexuais sado-masoquistas e assim por diante. Aquilo não era o tipo de coisa que eu considerava adequado para a idade do garoto, não era algo com que eu ou a maioria dos meus amigos homossexuais nos identificaria e aposto que aquele jovem também não estava buscando algo parecido. Ele estava confuso, e aquelas imagens poderiam apenas agravar a sua confusão. Eu sabia que, olhando para aquelas páginas, ele diria para si mesmo, com os seus botões: “mas aquilo não corresponde ao que eu sou”. Preocupava-me ao imaginar que ele poderia estar pensando: “bem, se aquilo é ser homossexual, então eu não devo ser um”. Ou: “sou homossexual, então acho que seria bom eu tentar me tornar parecido com aqueles homens”. Ou: “bem, eu sou homossexual, mas não quero me transformar nisso; de maneira que a minha única saída deve ser reprimir aquilo o que sinto e me casar”.
 
A grande ironia é que eu estava lá observando tudo. Eu poderia ter lhe explicado algumas coisas. Eu poderia ter lhe dito que a vida homossexual é tão variada quanto a vida heterossexual. Sim, há homossexuais que se envolvem com S&M ou cross-dressing; há homens homossexuais muito promíscuos. E há também homens heterossexuais em tudo isso. Porém, a maior parte dos homossexuais está muito próxima à maioria dos heterossexuais. A grande diferença é que eles são quase invisíveis; eles se mantêm essencialmente calados a respeito da sua condição homossexual; de forma que a maioria dos homossexuais do mainstream não contribui muito para a imagem pública – ou o diálogo público a respeito – do que significa ser homossexual. A imagem é formada de antemão e o diálogo “homossexual” interrompido por aquele segmento da população gay mais visível e radical. Observando o garoto de costas, pude perceber a gravidade do caso. Pois, permanecendo em silêncio, não poderia ajudá-lo a corrigir as imagens formadas em sua mente por aquelas páginas da Native. Se ousasse me aproximar, ele poderia pensar que eu estava tentando me insinuar – e aquele pensamento provelmente o atemorizaria. Eu queria pelo menos ser capaz de lhe dar um livro que pudesse ajudá-lo a entender quem ele era. Mas este livro não existia. Foi justamente por isso que escrevi um.
 
Há uma frase em Shadowlands, o filme sobre C.S. Lewis, que diz: “nós lemos para saber que não estamos sós”. Uma das coisas mais solitárias que pode existir no mundo é um jovem que começa a perceber que é homossexual, que não tem nenhuma idéia a respeito do que essa situação pode significar para o seu futuro, que não sabe o que fazer com isso e que não tem ninguém em sua vida, seja parente, professor ou pastor, para tratar do assunto de forma segura, sem o medo da indiferença, rejeição ou condenação. Justamente por isso é que o garoto havia ido àquela livraria, se dirigido à seção de revistas e se esforçado para ter coragem de ler a Native.
 
Muitos leitores homossexuais responderam calorosamente àquela anedota. Quando entreguei o manuscrito do livro na Simon & Schuster, meu editor enviou cópias das primeiras vinte páginas para todos os funcionários da empresa. Nos dias seguintes, ele me contou, quase todos os homossexuais da Simon & Schuster vieram ao seu escritório para lhe dizer: “eu era aquele rapaz”. E, nos seis meses após a publicação do livro, encontrei muitos homens homossexuais que me falaram a mesma coisa, “eu era aquele garoto”. Obviamente, eles não disseram aquilo literalmente; simplesmente queriam dizer que tinham se identificado com aquela solidão, com aquela necessidade de compreender e de ser compreendido.
 
Alguns leitores heterossexuais protestaram, afirmando que eles também tiveram experiências parecidas naquela mesma idade folheando a Playboy ou alguma outra publicação similar. Mas havia uma distinção, e isso evidencia a diferença real entre crescer como um homossexual e crescer como um heterossexual. Uma criança heterossexual é rodeada por imagens que dizem o que significa ser heterossexual, cercada por modelos de papéis pontenciais. Os seus pais, os amigos de seus pais, os casais nos programas de TV e nos filmes, as relações que são expressas em canções executadas no rádio e na MTV, as situações familiares nas histórias e livros que são usados na escola. O sentimento íntimo de si, de sua identidade sexual, é um reflexo de todo um espectro de imagens em que a Playboy se encontra numa posição extrema. Para uma criança homossexual, as coisas são completamente diferentes. Não é fácil explicar aos outros o quão diferente ela é, nem como ela se sente. Ser uma criança homossexual, na maioria das famílias, é crescer com muita confusão na cabeça. É se deparar com uma contradição extrema entre o profundo, embora desarticulado, setimento íntimo de quem você é e aquilo o que seus pais, outras pessoas a sua volta e, de fato, o mundo inteiro afirmam a seu respeito. É olhar em volta e ver imagens de homens e mulheres partilhando suas vidas e tendo intimidade, mas não se identificar de maneira alguma com elas. Desde a infância, seus pais assumem que você é heterossexual. É esperado que, quando alcançar uma certa idade, você desejará namorar alguém do sexo oposto. Todo mundo gosta de saber qual é o seu tipo de garota preferida e se você tem uma namorada. E, de certo modo, mesmo que não tenha parado para pensar sobre isso nem ligado aquilo o que você é à divertida palavra “gay”, há sempre um sentimento de ERRO, como se você tivesse sido colocado em um outro planeta.
 
Para muitos adolescentes homossexuais, não há nada em suas vidas capaz de fazê-los se sentirem ÍNTEGROS. Tente imaginar como se sente um homossexual, digamos, de 13 anos que está lutando para entender seus sentimentos quando se depara com coisas como uma propaganda que vi no The New York Times há uma ou duas semanas atrás. Era um anúncio contra o uso de drogas e mostrava um garoto de uns 13 anos de idade se preparando para inalar um filete de cocaína. Uma frase dizia: “o comum é que garotos, aos 13, comecem a se interessar por garotas”. Para um garoto de 13 anos que começava a se interessar por outros garotos, este anúncio é mais uma mensagem que lhe diz que há algo de errado com ele, que ele não se encaixa naquilo. Ninguém desejava causar algum tipo de dano com este anúncio, naturalmente: estava-se tentando fazer o bem. Este é o ponto: mandamos estas mensagens mesmo sem perceber.
 
Para a maior parte daqueles adolescentes homossexuais, a já difícil experiência da adolescência se torna um pesadelo. Uma romancista chamada Robb Forman Dew publicou um livro de memórias, intitulado The Family Heart, contando como ela se sentiu e o que aprendeu quando seu filho, um segundanista da Universidade de Yale, revelou-lhe a sua homossexualidade. Depois de conversar com ele por algumas semanas e meses, e após se encontrar com pais de outros adolescentes homossexuais e ouvir a respeito das dificuldades e suicídios de alguns deles, Dew chegou à conclusão de que “crianças homossexuais crescem sozinhas” e “as suposições dos pais da heterossexualidade de seus filhos e filhas são uma ameaça para a vida dos adolescentes”.
 
Todos os dias adolescentes homossexuais se revelam aos seus pais. Todos os dias adolescentes cometem suicídio porque têm sido rejeitados ou vêm se sentindo aterrorizados pelo fato de imaginarem que poderão sofrer rejeição pelos seus pais. E tudo isso é tão desnecessário. Não há necessidade de eles continuarem na solidão e confusão que experenciam. A única razão pela qual isso ocorre é que há ainda muito desconforto, confusão, ardor, insegurança e preconceitos inconscientes por parte de muitos heterossexuais quando o assunto é homossexualidade. Quando a maior parte dos pais pensa a respeito da homossexualidade, se de fato pensam sobre isso, eles a imaginam como algo exterior, do qual seus filhos devem ser protegidos. Mas o fato é que se o seu filho, digamos, se torna homossexual não é porque algo ou alguém o influenciou, o infectou ou o recrutou. É porque há algo no seu interior, o qual ele pode ter descoberto em uma idade bem precoce; e, pelo fato de nem seus pais nem seus professores terem sido preparados para isso ou para explicá-lo o que este sentimento significa, ele se sente incrivelmente alienado, diferente, esquisito. Provavelmente, levará alguns anos para que ele consiga nomear este sentimento e talvez mais alguns para que ele tome coragem para mencioná-lo a alguém.
 
Ainda que homossexuais como sujeitos comuns no cotidiano permaneçam quase invisíveis, a homossexualidade como uma “questão” tem estado em evidência na mídia. É um tema recorrente nos programas de auditório. Alguns heterossexuais aprenderam muito com essa exposição, alguns preconceitos das pessoas diminuiram ou mesmo, em certos casos, desapareceram. Mas há ainda uma incrível quantidade de desinformação e desconforto. Certas pessoas são tolerantes, mas ainda não aceitam. Elas não gostam da idéia dos homossexuais abrirem suas vidas da mesma maneira que os heterossexuais. No fundo, eles podem suspeitar da homossexualidade de alguém próximo, mas simplesmente não desejam pensar sobre isso. Até essas pessoas superarem os preconceitos ou irem além de uma tolerância forçada, a vida de seus filhos, amigos ou irmãos continuára sendo mais difícil e solitária do que deve ser.
 
As discussões públicas sobre a temática da homossexualidade têm sido controladas por dois extremos ideológicos: a extrema esquerda gay e a extrema direita anti-gay, e o debate entre estes dois extremos tem espalhado mais ardor do que esclarecimento. Há aqueles que, em nome de Deus, vão a essas discussões e dizem inverdades sobre o que significa ser gay. Não apenas dizem mentiras: a maneira em que eles discutem o tema é uma grande farsa.


Falam da homossexualidade como sendo uma “escolha”, quando ela não é. Falam do “estilo-de-vida gay”, como se todos os homossexuais tivessem o mesmo tipo de vida. Falam da “promoção” e “defesa” pelos gays da homossexualidade e do recrutamente de jovens a ela, o que faz tanto sentido quanto defender a canhotagem ou recrutar pessoas para terem olhos azuis. Falam dos gays “empurrando uma agenda homossexual goela abaixo”: querer viver sua vida de forma honesta e ser respeitado, porém, não é uma agenda.

Este tipo de retórica politiza o tema da homossexualidade, desumaniza-o, faz com que as pessoas se esqueçam do fato de que estamos falando a respeito da vida de seres humanos. A homossexualidade é descrita como uma ameaça à família. No entanto, os que repudiam a homossexualidade e os direitos gays em nome da “família” são precisamente aqueles cujos filhos que, caso se descobrem gays, têm maior probabilidade de acabar saindo de casa, prostituindo-se, drogando-se ou cometendo suicídio.


A expressão “equivalência moral” aparece frequentemente nessas discussões. Talvez o comentário mais cruel que ouvi como conseqüência do meu livro foi feito por meu antigo editor. Eu o abandonei há alguns anos atrás, quando ele recusou uma crítica minha muito moderada do filme Longtime Companion, que tratava das experiências com a AIDS de vários casais gays. Quando um repórter o chamou para dar explicações, ele disse: “a crítica de Bawer estava estabelecendo uma equivalência estranha entre casais heterossexuais e casais homossexuais. Eu acho que isso não é convincente. Eu nunca me deparei com algo assim”. Bem, eu já. Eu vivi isso. O amor é igual, seja ele homossexual ou heterossexual. Muitas pessoas apenas não vêm ou não querem ver isso. Eles têm uma forte compulsão para encarar a vida íntima e os sentimentos dos homossexuais como sendo, de alguma maneira, diferentes dos seus. Eles dizem, com efeito: “você pode ser meu amigo, pode trabalhar para mim, pode pertencer à minha igreja – mas a sua vida, por definição, é tingida pela cor do pecado”. Quando pensam sobre sexo em suas próprias vidas, eles o colocam, muito propriamente, dentro do contexto de suas relações amorosas; quando pensam sobre sexo entre homossexuais, no entanto, frequentemente o isolam do contexto em que ele ocorre e do amor do qual ele é uma expressão, chamando-no de “comportamento sexual”, “conduta” ou “prática”. Imagine tais termos sendo aplicados ao componente sexual da sua própria relação amorosa e tente entender quão humilhante é ser visto dessa maneira.

Meu argumento advém de um fato básico: a homossexualidade é uma variação que ocorre naturalmente na orientação sexual. Pode não ser natural para a maior parte dos indivíduos, mas é, assim como o canhotismo, a condição natural de uma minoria significativa. Homossexuais são capazes de amar tanto quanto heterossexuais e precisam de uma ligação afetiva profunda e séria da mesma maneira que os heterrossexuais. A atividade sexual não é o único elemento em relacionamentos desse tipo, embora seja uma parte importante. Um estudo eclesiástico cita um documento de 1958 em que se descreve o papel do sexo no casamento. “A relação sexual”, afirma o texto, “não é de forma alguma a única linguagem do amor terreno, mas ela é, em sua forma plena e correta, a mais íntima e reveladora; ela possui a profundidade da comunicação denotada pela palavra ‘conhecimento’ tantas vezes utilizada na Bíblia; é um ato de dar e receber na unidade de dois espíritos livres que, em si mesmo, é bom (dentro do laço do casamento) e traz coisas boas para aqueles que o experimentam”. Isto é tão verdadeiro para uma união séria e amorosa entre dois homossexuais quanto é para uma união também séria e amorosa entre dois heterossexuais. Os homossexuais são criados de uma forma tal que o único tipo de união em que este tipo de vínculo pode verdadeiramente existir é o casamento homossexual. De fato, o que a orientação sexual diz respeito, no fim das contas, não é à capacidade ou ao prazer sexual, mesmo porque muitos heterossexuais podem sentir e dar prazer em uma relação sexual homossexual, sob certas circunstâncias, assim como muitos homossexuais são capazes de ter e receber prazer em relações sexuais heterossexuais, sob certas circunstâncias. A orientação sexual diz respeito, essencialmente, ao modo pelo qual um indivíduo ama; acerca do tipo de unidade entre dois espíritos livres que um dado indivíduo é, por sua natureza intrínseca, capaz de formar.
 
Para mim, estes fatos conduzem inexoravelmente ao reconhecimento de que a única forma cristã da Igreja responder à realidade da homossexualidade e à identidade do amor e compromisso homossexuais em relação ao amor e compromisso heterossexuais é abençoando as uniões gays e permitindo a ordenação de ministros abertamente gays.


Para chegar a esta conclusão, levei um longo tempo. Sou um produto de um casamento denominacionalmente misto. Minha mãe foi batizada na Igreja Batista do Sul; meu pai cresceu como um católico romano. Quando criança, frequentei um escola dominical luterana por vários anos, que foi escolhida principalmente porque era próxima à esquina de nossa casa. Nossa família não era uma frequentadora assídua, mas eu fazia minhas orações com grande convicção a cada noite. E as fiz até a noite anterior ao dia em que descobri que eu era gay. Tornei-me então frio e não orei mais por quase dez anos. Por quê? Porque tudo aquilo o que haviam me ensinado me fazia acreditar que você não poderia ser gay e cristão. No momento em que tomei conhecimento de que eu era gay, também descobri que isso era uma parte essencial de mim e que não havia nada de errado com isso. De fato, aquela compreensão foi uma experiência extraordinariamente positiva e bonita, pois envolveu um sentimento de completude, auto-conhecimento, verdade e possibilidade de amar, e eu não conseguia me ver acreditando em um Deus que exigia que eu negasse todas essas coisas. Foi então que rejeitei a Cristo.

Felizmente, a história não termina aqui. Anos mais tarde, apaixonei-me por um homem que tinha crescido em uma comunidade Adventista do Sétimo Dia e abandonado aquela igreja depois de ter se descoberto gay. Apenas a partir de então fui capaz de entender com toda a profundidade o que significa dizer “Deus é amor”. Para mim, aquelas três palavras carregam consigo tudo; elas fizeram com que tudo passasse a ter sentido. Entretanto, continua existindo uma tensão em mim, assim como em todos os cristãos gays, pois, enquanto nossos relacionamentos envolvendo compromisso nos parecem refletir o amor de Deus mais do que tudo em nossas vidas, a Igreja, como uma instituição humana, continua sugerindo que muitos aspectos de nós mesmos que tornam o amor possível são profanos aos olhos de Deus. Um ministro pode abençoar nosso gato ou nosso apartamento, mas não pode abençoar o nosso relacionamento.


Andrew Sullivan, o editor reconhecidamente gay do New Republic e um católico romano praticante, concedeu no ano passado uma entrevista para a revista católica America acerca de ser gay e católico. Sullivan descreve o quão difícil foi para ele se ver dessa forma por causa dos ensinamentos de sua fé. Mas ele continua dizendo que “tão logo eu de fato explorei a possibilidade de contato humano dentro do meu modo de ser emocional e sexual – em outras palavras, tão logo me permiti amar alguém – todas as construções que a igreja havia me ensinado acerca da homossexualidade me pareceram tão claramente erradas que eu não conseguia mais ver aquilo como algo problemático. Pois meu próprio senso moral se mostrou irresistível, pois senti, através da experiência de amar ou me permitir amar alguém, um sentimento grandioso da presença de Deus – pela primeira vez em minha vida”. Eu me identifiquei demais com esse trecho. Sullivan continua dizendo que a Igreja Católica Romana “define homossexuais por meio do ato sexual, coisa que jamais faz com os heterossexuais, e nesse ponto a igreja concorda de maneira bizarra com os ativistas gays radicais que também querem definir a homossexualidade a partir simplesmente do seu conteúdo sexual. No entanto, a condição homossexual não diz respeito ao sexo como tal. Fundamentalmente, diz respeito ao cerne de uma identidade emocional. Diz acerca de quem amamos, no fim, e de como podemos nos tornar completos como seres humanos”. Na verdade, ele afirma, “as consequencias morais, na minha própria vida, de recusar a me permitir amar outro ser humano se mostraram desastrosas. Esta recusa me tornou uma pessoa frustrada, irritada e amarga. Isso se refletiu em todas as outras áreas da minha vida. Quando aquele bloqueio emocional foi removido, pude usufruir de um equilíbrio moral completo, da mesma maneira que indivíduos solteiros se desenvolvem em diversas áreas com o casamento, em grande parte porque passa a haver uma estabilidade, segurança, uma espécie de rocha sobre a qual é possível edificar uma vida emocional e moral. Negar isto para os homossexuais não é simplesmente incoerente e errado, do ponto de vista cristão. É incrivelmente destrutivo para a qualidade moral em geral de suas vidas. Este elemento faz parte de uma integridade moral plena que não pode ser esfacelada. Você não pode exigir que alguém suprima aquilo o que o torna completo como ser-humano e continue tendo uma vida correta. Nós somos seres-humanos e precisamos de amor em nossas vidas a fim de sermos capazes de amar os outros – a fim de sermos bons cristãos! A igreja está convidando os homossexuais não à santidade, mas sim à perversão”.

Uma forma comum de defender esta falta de aceitação é se voltando às Escrituras. Naturalmente, a Bíblica tem sido usada para justificar a escravidão e a poligamia, dentre outras coisas, pois há passagens nas quais estas práticas são tratadas como se fossem aceitáveis. Além disso, enquanto Cristo nos ensina a amar nossos inimigos, ao invés de fazermos guerra, e a não acumular tesouros na Terra, você não encontra membros da direita religiosa protestando contra bases militares ou em frente a mansões de milionários com cartazes com aquelas citações como os vê, em toda parada do orgulho gay, com faixas recheadas de trechos de Levíticos, Romanos e outras passagens bíblicas que supostamente condenam a homossexualidade. Poucas coisas têm sido mais amplamente retiradas de seu contexto histórico e textual e mais desonestamente e maliciosamente mal-empregadas do que essas passagens. Em primeiro lugar, uma tradução exata delas é difícil, se não impossível, pois a maior parte das antigas expressões relacionadas aos papéis e identidades sexuais não possui equivalentes modernos precisos. Isto faz sentido, uma vez que as antigas sociedades tinham papéis sexuais distintos dos nosssos, possuiam uma compreensão diferente das relações sexuais e não tinham nenhuma idéia do que significa “orientação sexual”. Algumas culturas antigas tinham templos de prostituição masculina, por exemplo, e reconheciam publicamente as relações entre homens e garotos, e os termos usados para fazer referência àqueles papéis e relações em certas passagens do Novo Testamento têm sido frequentemente traduzidos como “homossexuais”. Como afirma aquele mesmo estudo eclesiástico, “as visões bíblicas acerca da sexualidade estão completamente imersas em circunstâncias culturais e históricas... A sexualidade é controlada ou influenciada por diversos tabus e preocupações relacionadas à pureza cerimonial... A procriação e a perpetuação da espécie são, compreensivelmente, importantes questões.” Uma outra preocupação era com a distinção, por parte dos Israelitas, em relação aos Cananeus, cujas práticas sociais e religiosas eram extremamente diversas, incluindo relacionamentos homossexuais.
 
Uma questão relacionada à pureza cerimonial informa Levíticos 18:22, onde se lê: “com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é”. Isto, como nota o estudo, ocorre “em um contexto de ensinamentos a respeito da santidade cerimonial”, juntamente com passagens que proibem o consumo de carne de porco, o uso de trajes contendo mais de um material ou o cultivo de áreas com duas espécies diferentes de sementes. Estes preceitos foram deixados de lado pelos cristãos primitivos; no entanto, 2000 anos depois, ainda Levíticos 18:22 é citado para se condenar a homossexualidade.


Gênesis 19, a história de Sodoma, também é usado contra gays. Sodoma é destruída porque os homens de Sodoma tentaram, em massa, abusar sexualmente, sem saber que eram anjos, de dois homens que estavam na casa de Ló como convidados. Grande parte dos estudiosos sérios da Bíblia concorda que o elemento homossexual, embora possa perturbar a mente de certos leitores, não é o ponto central da história. O que está em questão não é a homossexualidade; é a violação da hospitalidade, algo sagrado nos tempos bíblicos. É obsceno, de qualquer forma, sugerir que uma história de uma tentativa de abuso violento em massa possa nos convencer da visão de Deus a respeito de um relacionamento sério entre dois homens ou duas mulheres.

Da mesma forma, a referência de Paulo em Romanos a como “Deus entregou [os gentios] a paixões indignas, que deixaram de ter relações sexuais ‘naturais’ e se envolveram em relações ‘não-naturais’”, não é um julgamento a respeito da orientação homossexual, ou mesmo dos atos homossexuais em si mesmos; ao invés disso, Paulo utiliza a vida devassa em Roma, que inclui relações homossexuais, para apoiar um argumento em favor da cristandade e da ordem natural de Deus, contra o paganismo romano e aquilo o que ele via como não-natural. Certamente os antigos, incluindo Paulo, não compreenderam que há algumas pessoas para as quais a homossexualidade é natural; ele assume que os gentios são pessoas para as quais a heterossexualidade é natural, mas que se entregam a algo que, para eles, é não-natural. De qualquer maneira, o ponto principal desta passagem, que muitos lançam com violência contra os gays, é precisamente que as pessoas não devem usar passagens como estas para julgar os outros, mas antes como auxílio no exame de sua própria moralidade, “pois”, como Paulo diz, “julgando os outros, você condena a si próprio” (Romanos 3:10).

O próprio Jesus não disse nada diretamente a respeito da homossexualidade, ainda que tenha citado um trecho de Gênesis que afirma que “um homem deixa o seu pai e a sua mãe para se unir com a sua mulher, e os dois se tornam uma só pessoa”. Entretanto, Cristo não estava insistindo aqui que todos os homens deveriam se casar com mulheres; ao invés disso, ele estava respondendo a uma questão relacionada ao divórcio, enfatizando que o casamento deve ser visto como indissolúvel. Na verdade, enquanto Jesus jamais condenou a homossexualidade, ele foi muito duro em condenar o divórcio. Como o estudo eclesiástico nota, “talvez a descontinuidade mais óbvia que vivemos na área dos relacionamentos sexuais seja em relação à prática do divórcio e à contração de segundas núpcias, as quais contrariam a explícita proibição de Jesus”.

Cristãos que rejeitam a ordenação de homossexuais ou a benção de relacionamentos homossexuais sérios, mesmo que aceitem que é melhor que alguns casamentos terminem em divórcio, devem se perguntar honestamente se estão tomando estas posições pelo fato de terem lido suas Bíblias e se sentido compelidos moralmente pelo que leram ou se têm ido em direção à Blíblia para encontrar ou fabricar apoio espiritual para um pré-conceito ou desconforto, para uma preocupação pela família, para um medo de algo que lhes parece muito radical, estranho, ultrajante.


Pois o fato é que, quando você ouve algum cristão falar acerca da homossexualidade e se volta em seguida para os envangelhos, encontra uma divergência absoluta no tom e na ênfase. Quando Cristo fala sobre o bem e o mal, ele não coloca o foco sobre o sexo. É claro, a partir de seus ensinamentos e de seu exemplo, que, para Cristo, moralidade quer dizer ser bom, gentil, responsável, ter consideração e generosidade de espírito. Isto significa que devemos estar dispostos a repensar nossos pressupostos, a rejeitar nossas tradições e a agir ousadamente pela causa de Deus. Como cristãos, somos muito diferentes uns dos outros, mas temos duas coisas em comum: o batismo e obrigação moral ao Resumo da Lei, que nos convida a amar a Deus e ao nosso próximo, reconhecendo o amor humano como um reflexo do amor divino – e, ímplicito neste reconhecimento, parece-me, está uma obrigação de respeitar e se alegrar com o amor que as outras pessoas sentem. O cristianismo é, na sua essência, uma luta para se ultrapassar os preconceitos e conseguir olhar nos olhos do mais marginal, mal-cheiroso, bruto e rude dos estrangeiros e sentir compaixão. Dizer que alguém é heterossexual ou gay é se referir ao modo pelo qual uma pessoa foi feita para amar. Não admitir aquele amor e não reconhecer um compromisso baseado nele é condenar o amor, exigir que certas pessoas vivam sem ele, e nada pode ser mais não-cristão do que isso.

Texto publicado no livro “Beyond Queer: Challenging Gay Left Orthodoxy”. New York, Free Press, 1996.

2 comentários:

  1. É um belo texto, sem dúvida. Mas bate na mesma tecla de que o inferno dos homossexuais são os outros. Não nego que os gays sofrem injustiças históricas, que as instituições precisam rever seus parâmetros etc etc. Mas acho meio lugar-comum ficar falando de inquisições, invocando a igualdade ou exigindo o direito de casar quando a maior parte dos gays sequer sabe trepar com a mesma pessoa pela segunda vez.

    Ainda espero ler um texto diferente. Quero ver um autor dizer o que faz pelas futuras gerações, qual alternativa elas terão ao invés de cair nessa gaiola das loucas com sucursais no mundo inteiro, vulgo mundo gay. O que Bruce Bawer faz pelos jovens em busca de um norte, em busca daquilo que o mundo hetero lhes sonega: dignidade? Como ele reage ao fato de que esse jovem vai deparar com boates, bares, sites de sexo, paradas vexatórias, saunas - tudo com a risonha complacência dos militantes - quando deveria encontrar, isto sim, um ambiente minimamente equilibrado e sensato para atenuar a orfandade a que somos, todos, condenados pela homossexualidade.

    Os gays "pensantes" querem a chancela do mundo hetero para suas idiossincrasias, seus trejeitos, sua vida sem pé nem cabeça. E não oferecem qualquer contrapartida! E dá-lhe acusações contra a Igreja, contra o imperialismo, contra o Pato Donald. Ao invés de tentar legitimar a desordem(culpando a História e, tacitamente, admitindo suas deformidades), os gays deviam repensar a própria condição e parar, de uma vez por todas, de esperar que Jesus Cristo os convide para seu rebanho.

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  2. "os gays deviam repensar a própria condição e parar, de uma vez por todas, de esperar que Jesus Cristo os convide para seu rebanho."

    Concordo em partes com Ronaldo.

    mas este é um belo texto e quanto mais divulgação sobre a interface "homossexualidade e religião" mais estaremos disseminando a reflexão aos que se encontram em vida efêmero devido a não aceitação de seu "eu".

    eu sou escritor em teologia Inclusiva e estou lançando um livro entitulado "Ser Gay e Cristão é possível" - site: www.sergayecristaoepossivel.com

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